POR QUE OS BATISTAS MUDARAM?

Uma reflexão sobre as mudanças ideológico-­doutrinárias dos batistas cooperantes com a Convenção Batista Brasileira

Por que os batistas brasileiros, de um modo geral, mudaram tanto nas últimas quatro décadas? O que os levou a transitar de uma teologia bíblica, conservadora e com tendência moderadamente calvinista para uma teologia liberal,  ecumênica,  enfaticamente secular e de filosofia nitidamente neo-pentecostal contemporânea?

A primeira razão, em nosso entender, é que não tiveram a felicidade de doutrinar eficazmente as gerações seguintes nos fundamentos bíblicos e na doutrina apostólica autêntica. Os pastores nativos, com boas exceções, não tiveram sucesso e eficácia no treinamento bíblico e teológico das igrejas que fundavam e pastoreavam; os mestres posteriores formaram­-se em conteúdos muito mais ralos e menos substanciosos no que tange à ortodoxia bíblica e à teologia conservadora e reproduziram às vindouras gerações uma biblicidade cada vez mais frágil, contemporânea, sem valores absolutos e repleta de contradições. O resultado é o que vemos hoje: uma denominação batista heterogênea, misturada com todas as teologias contemporâneas, mergulhada num mar de sistemas de crescimento numérico-­político-­financeiro, sem compromisso algum com a verdade revelada. Aqui e ali eclodem movimentos de retorno às origens, aqui e ali igrejas ou associações mantém­-se fiéis aos padrões bíblicos, mas tornam­-se exceções cada vez mais raras.

Quem consulta a literatura batista publicada no Brasil desde a sua implantação missionária no século XIX, mediante a imprensa dos seus pioneiros norte-­americanos, consegue visualizar clara e cristalinamente dois tipos de fé e comportamento, o de antes e o de hoje.

Nossos primeiros missionários e teólogos, como Zachary Clay Taylor, Salomão Luiz Ginsburg, William Edwin Entzminger, Dr. Shepard, William Carey Taylor, Dr. Langston, Dr. Crabtree etc, mantinham-­se numa postura bíblica por vezes chamada de radical. Eram primeiramente crentes bíblicos. Criam na revelação bíblica como imutável e completamente inspirada pelo Espírito Santo. Criam na absoluta pecaminosidade do homem, na graça de Deus, no plano de salvação em Cristo através de Sua morte vicária e ressurreição gloriosa. Criam na regeneração pela Palavra, recebida pela fé em Cristo. Criam na presença do Espírito Santo no crente e na igreja. E não admitiam mudanças naquilo que os definia como seguidores do supremo mestre. Não eram ecumênicos, não eram unicionistas, não abdicavam dos valores cridos em prol da convivência ou de uma suposta misericórdia com o pecador.

Como batistas, viviam plenamente os axiomas da religião, tão bem condensados, propostos e enunciados pelo Dr. E. Y. Mullins em 1908:

O santo Deus e Pai, cheio de amor, tem direito de ser o soberano das suas criaturas.
Todos os homens têm direitos iguais de acesso diretamente a Deus.
Todos os crentes gozam o mesmo direito e privilégios na Igreja.
Para ser responsável, a alma precisa ser livre.
A Igreja livre no Estado livre.
Ama ao próximo como a ti mesmo.

Assim os batistas estabeleciam as suas igrejas, doutrinavam os seus conversos, formavam os seus líderes e divulgavam o evangelho de Cristo. Formaram seminários através dos quais preparavam os seus obreiros, pastores e mestres, suprindo a crescente demanda do campo. Inúmeros vocacionados ao ministério pastoral, à liderança de igrejas e às obras missionárias foram encaminhados para esses centros de referência bíblica e muniram­-se de todo o conhecimento bíblico necessário, esparramando pelo Brasil boas igrejas, bons ensinamentos, boa cultura teológica e uma forma homogênea de compreender os alicerces de nossa fé.

Porém, infelizmente, o sistema falhou. Pastores deixaram de ensinar com eficiência a Palavra de Deus. Fizeram discípulos fracos que originaram outros mais fracos ainda. Os velhos mestres foram substituídos por outros mais contemporâneos e mais em moda. E em pouco tempo vimos tristemente uma mudança de identidade no retrato da fé batista contemporânea. O que mudou?

A Bíblia deixou de ser inerrante e absoluta, passando a ser objeto de crítica, de discussão contemplativa e de releitura à luz da sociologia cultural moderna. Aos poucos as versões existentes deram origem às novas, onde tudo o que era motivo de dúvidas foi colocado de lado, comentado criticamente e, não raras vezes, retirado do texto comumente distribuído. Há versões de renome onde versos completos estão absolutamente ausentes.

Deixamos a ênfase peregrina para adotar a postura de residentes. Da Terra Prometida, do lar eterno, do Céu e do porvir, passamos a falar de ecologia, de cuidar de rios e matas, de implantar políticas governamentais de habitação e de defender em nossos púlpitos bandeiras partidárias. Deixamos de preparar o povo para a morte e nos concentramos em ensiná­-los a viver bem. Não que seja errado cuidar do planeta, ensinar civismo e defender os direitos. Cristo não instituiu a Sua igreja para isso, mas para ser povo Seu, separado e santo, preparado para a Sua volta, testemunhas de Sua realidade e Sua eficácia no coração humano. Nosso ensino deixou de ser bíblico para tornar­-se secularmente contemporâneo. A bíblia tornou­-se um mero assessório.

Nesse processo de transformação o batismo, unicamente por imersão (é isto que a palavra grega significa!), com todo o seu simbolismo bíblico, deixou de ser exigido dos membros das nossas igrejas. Hoje temos membros aspergidos em igrejas protestantes, e pessoas vindas do catolicismo, cujos batismos católicos foram considerados aceitáveis.

A Ceia do Senhor, considerada ordenança memorial do sacrifício do Calvário e da volta gloriosa de Cristo, passou a ser sacramento resistente à reforma, chamado de comunhão e eucaristia, feito com elementos considerados santos, com cálices para ministros e outros para os leigos, celebrado indistintamente com quem quiser, sem qualquer pejo ou filtro doutrinário, na alegação ecumênica de que todos são filhos de Deus. Além disso passou­-se a levar a Ceia até a casa dos idosos e dos doentes, não com a igreja a celebrar com o carente, mas como elemento abençoador numa evidente similaridade com o sacramentalismo.

O culto, antes centralizado no ensino bíblico, na pregação da palavra de Deus, num clima espiritual sem adaptação de contemporaneidades culturais, transformou-­se em entretenimento público, adquirindo ao longo do tempo elementos neo-pentecostais (equipes de louvor, corais gospel, danças, coreografias, espetáculos das igrejas eletrônicas americanas) e ênfases de entretenimento (atividades para agradar os auditórios, como manifestações cênicas, música regional, apresentações artísticas, debates de assuntos contemporâneos, venda de produtos etc). O púlpito foi retirado do centro e a música como espetáculo tornou­-se foco. A pregação tornou-­se um acidente. E quando acontece, tem que ser relevante para o crente estilizado e atual; do contrário não deve haver pregação. A temática deve ser política, ecológica, de auto-­ajuda, psicológica, sociológica, triunfalista no sentido neo-pentecostal (vitória, prosperidade, unção, promessas, trocas com Deus).

A evangelização, antes direcionada a esparramar as boas ­novas de salvação aos pecadores perdidos, levando-­os a um arrependimento genuíno e à fé em Cristo como Senhor e Salvador, tornou­-se meta de crescimento para tornar esta ou aquela igreja, esta ou aquela associação, convenção ou organização relevante e maior, numa política de crescimento empresarial, de metas de arrecadação e de ostentação de resultados. Assim, evangelizar deteriorou-­se, transformando-­se em crescimento de agências, de juntas missionárias, de adesão em planos de sustento financeiro. Quanto maior a adesão maior a oferta; quanto maior a oferta mais funcionários, mais exibições em mídia, mais divulgação para realimentar a máquina. A propaganda passou a fixar­se na adesão, nas vantagens, no entretenimento, na importância de estar num grupo vencedor e próspero, nos descontos que poderão ter no comércio da região e na força que terão nos pleitos políticos. (recebi a agenda convencional de meu estado, cuja propaganda principal é de uma seguradora, onde parte do lucro será repartida com a entidade, numa clara mistura entre comércio e religião: quem adquire o seguro dá um pouco para a entidade…) Criaram-­se mega­-igrejas, super-­pastores, hiper­sistemas de franquia com bandeiras em nada batistas ou cristãs, mas que promovem progresso numérico, educacional, financeiro e cultural.

Os ministros bíblicos, alistados no Novo Testamento e por ele descritos e limitados, foram trocados pela moda de ministérios contemporâneos neo-pentecostais. Assim, se a bíblia falava em pastores e diáconos, sendo que para pastores usava sinônimos (presbíteros, anciãos, bispos), e estabelecia para o seu uso o sexo masculino e uma estrutura familiar cristã digna (se casados fiéis, com famílias organizadas), agora foram abandonados pelos ministérios do momento: pastores e pastoras, pastores que consagram suas esposas ao ministério, sob pretexto de serem co-­pastoras (que também melhora a prebenda da família); apóstolos e apóstolas, numa clara devirtualização das interpretações bíblicas (ignorando o uso da palavra “apóstolo” em seu contexto inicial e primitivo, dos 12 escolhidos na primeira geração dos discípulos, que receberam a incumbência da revelação do Novo Testamento, e a aplicaram como mera missão contemporânea de enviados por Cristo) criando uma hierarquia de ministros nunca antes vista num meio batista; bispos associacionais e profetas especializados em revelações.

Nessa mudança de identidade não foram poupadas as antigas instituições que ensinavam aos batistas o jeito bíblico de ser. Muitos seminários mudaram de nome, outros foram vendidos. Seus diretores foram trocados e seus professores foram conseguidos no mercado de mestres e doutores de outras religiões. Seus cursos tornaram-­se inclusivistas, aceitando qualquer aluno de qualquer religião para obedecer aos métodos educacionais contemporâneos da sociedade. O resultado é que não se pode mais falar religiosamente e de forma batista em sala de aula, para não agredir quem não se identifica com a fé. Nestas escolas estão sendo preparados os nossos novos pastores, as novas pastoras, os novos apóstolos, as novas apóstolas, os nossos novos líderes, que continuarão o processo de secularização de nossas igrejas.

As nossas editoras, faróis da ortodoxia e dos ensinos bíblicos fundamentados, foram extintas, seja por incompetência administrativa, seja por falta de mercado comercial. Suas publicações perderam­-se nas bibliotecas carcomidas por traças e umidade, e o acervo não foi digitalizado. Seus compêndios não foram e nem serão republicados porque não traduzem mais a fé fétida e suja que agora nos conduz e nos domina. Novas editoras são formadas, atendendo à crescente demanda dessa revolução religiosa que se faz há quarenta anos em nossas igrejas. Por desconhecer os fundamentos o povo contemporâneo aceita de bom grado o veneno compartilhado e assim cada vez mais nos tornamos outra coisa, deixando para sempre o que um dia foi a fé batista. Somos muito mais socialistas e crentes liberais do que igreja de Cristo de orientação batista (do tipo que sempre existiu).

Onde tudo isso começou? Na igreja local, quando os pastores deixaram de ensinar “todo o conselho de Deus”. A falta de treinamento bíblico, de ensino fundamentado, de exposição bíblica nos púlpitos, de escolas bíblicas dominicais fortalecidas por aulas e professores bem preparados. Falhou a igreja local quando afrouxou sua doutrina, permitindo pequenas mudanças, pequenas heresias, pequenas concessões, que, ao longo do tempo, tornaram-­se os grandes e vultosos desvios que hoje contemplamos tristemente.

“Poderíamos sem medo de erro, afirmar que vivemos a situação descrita pelo apóstolo no capítulo 4 da primeira epístola à Timóteo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência…”. Mas esta situação também é fruto de uma inversão de valores por parte daqueles que detêm a responsabilidade de serem para o povo de Deus o padrão a ser seguido (v.12). Ao contrário da exortação apostólica, aceita-­se hoje todo o tipo de fábula profana em detrimento do alimentar-­se com as palavras de fé e da boa doutrina.

Como batalhar”, como disse Judas, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, se esta fé vem se modificando conforme as necessidades particulares? O uma vez por todas” perde a cada dia o seu sentido para muitos em nossas fileiras denominacionais. É estarrecedor constatar que o tem cuidado de ti mesmo” do verso 16 de I Timóteo 4, para muitos dos nossos pastores, foi isolado do e da doutrina” e mais isolado ainda do contexto no qual está inserido no capítulo que trata indubitavelmente do perigo claro e real de apostasia no seio da Igreja de Cristo. Sendo assim, transformou­-se este tem cuidado de ti mesmo” em uma lei na qual o pastor cuida de seus próprios interesses. Joga-­se esta pequenina parte contra todo o contexto que coloca o ministro como exemplo, padrão para os fiéis (seguidores de Cristo e não do pastor). O tornar-­se exemplo é consonante com as muitas vezes em que o próprio apóstolo se coloca como exemplo a ser seguido e imitados pelos que seguem a Cristo, mas nunca deixando de lado o modelo supremo de quem Paulo mesmo era imitador: Cristo Jesus. Uma leitura rápida no capítulo 2 da carta aos Filipenses torna­-se por demais elucidativa neste assunto. A responsabilidade de ser um bom ministro (servo) de Cristo alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que são o verdadeiro cuidado de si mesmo a que Paulo se refere, é negligenciado em larga escala em nossos arraiais. Há uma abundante oferta de terreno fértil para a apostasia, porque os que deveriam firmar­-se como atalaias contra este mal, tornaram­-se eles mesmos os seus disseminadores.” (1)

Por que os batistas mudaram? Porque lhes faltou fundamento bíblico. Somente com igrejas e pastores que desejem voltar às Escrituras Sagradas teremos novamente despertada a identidade batista original. E isto só acontecerá quando cada pastor local conscientizar-­se da importância de ser ele o doutrinador do seu povo, o semeador da sã doutrina, o criador de cultura e de opinião bíblica para a geração sob os seus cuidados. Foi a bíblia que fez dos batistas brasileiros originais o grande povo que foi e só no regresso às Escrituras Sagradas retomaremos a nossa autêntica firmeza e identidade batista.

Nessa luta muitos têm se levantado pelo país, clamando no deserto, considerados ridículos, ignorantes, fundamentalistas e conservadores, ignorantes e retrógrados, mas alçam de forma contundente as suas vozes, rogando ao povo que volte às Escrituras Sagradas. Fazem bem em cuidar de suas igrejas locais como sua maior responsabilidade educacional e doutrinadora, e fazem bem em divulgar os seus protestos para que outros se despertem para voltarem ao primeiro amor.

Entre estes figuram também os pastores batistas clássicos, um grupo de pastores que não adere e não concorda com o pensamento contemporâneo de nossa denominação e nem admite as mudanças radicais que foram feitas em nossa doutrina e maneira de ser. Esse grupo não ama ser conservador por ser fanático pelo passado; apenas sabe discernir entre a verdade e a mentira, seja ela antiga ou contemporânea. Não é um grupo que fabrica conflitos ou desestabiliza a unidade; é, isto sim, arauto do evangelho e pregador da Verdade que tem que ser anunciada. Os pastores batistas clássicos ousam divergir de um pensamento não bíblico institucionalizado e de manter os olhos fixos no evangelho. Ousam pregar a salvação da alma e a vida eterna. Ousam crer em pecado como quebra da Lei de Deus e do custo que o pecado traz. Ousam anunciar Cristo como Salvador, Redentor e Rei. Ousam batizar biblicamente os convertidos e rejeitar o batismo realizado em outras denominações não bíblicas. Ousam celebrar a Ceia do Senhor como ordenança memorial e só para aqueles que assim creem, não considerando sagrados os seus elementos. Ousam excluir em assembléia os membros em pecado e reconduzir os arrependidos à comunhão da igreja local. Ousam divergir dos ministérios contemporâneos de pastoras, de apóstolos ou apóstolas, de bispos e bispas ou de qualquer outro ministério usurpador ou anacrônico. Ousam fazer de seus púlpitos um local de exposição bíblica e não de palanque político. Ousam manter-se alheios aos sistemas de franquia ecumênica para crescimento de igrejas e absortos pela confiança em Deus, que dá o crescimento do jeito que quer e se quiser. Ousam ler a bíblia como única palavra de Deus e única fonte de fé e prática para os seus ministérios. Ousam divergir de seus atuais teólogos contemporâneos e não recomendar aos candidatos ao ministério o curso nos seminários ecumênicos, ainda que de propriedade denominacional. Ousam evangelizar à moda antiga. Ousam não ser massa de manobra nas mãos dos executivos de negócio que administram a máquina denominacional.

Por tudo isso dizemos: a única solução para os batistas, não a nível nacional, mas local, é fundamentar-se na Palavra de Deus novamente, de forma decidida, aprofundada, séria e organizada. Quem for fiel às Escrituras Sagradas será um batista fiel também, pois o livro dos batistas sempre se chamou BÍBLIA SAGRADA.

Que Deus nos abençoe.

São Paulo, SP, e Belo Horizonte, MG, 11 de dezembro de 2014.

Pastor Wagner Antonio de Araújo

Pastor da Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba, São Paulo, Brasil

Presidente da OPBCB – ORDEM DOS PASTORES BATISTAS CLÁSSICOS DO BRASIL.

Com a contribuição preciosa do Pastor Helcias Rodrigues de Souza, da Primeira Igreja Batista em Barreiro de Cima, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2º Vice­Presidente da OPBCB – ORDEM DOS PASTORES BATISTAS CLÁSSICOS DO BRASIL.

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Olá, amigos. Deus chamou-me para o seu santíssimo trabalho. Pela graça dele sou pregador do evangelho. Sirvo-o desde 1980 como cristão e desde 1991 como pastor batista ordenado. Pastoreei as igrejas: Igreja Batista em Vila Souza, SP, Igreja Batista Boas Novas do Jardim Brasil, SP, Igreja Batista em Bela Vista, Osasco, SP e Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba, SP.